“O
Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos
os seres humanos são atores – porque atuam – e espectadores – porque
observam. Somos todos
ESPECT-ATORES’” - Boal.
Augusto Boal e o Teatro do Oprimido
“O teatro como instrumento de integração”
O Teatro é uma das mais antigas
formas de expressão criada pelo homem e, igualmente, uma antiga arte que
veio no encalço da literatura, contando histórias através de gestuais,
vocalizações e (ou apenas) sonorização, dança, música, expressão.
No passado, fora uma poderosa ferramenta de comunicação para as massas, com
apresentações em locais públicos de grande transição, sendo utilizada
não apenas para contar histórias para divertir e entreter, mas também
como forma de protesto e de propagação de ideias, usada para fins
políticos e revolucionários.
Como tudo, o Teatro evoluiu e muitas técnicas foram desenvolvidas, e hoje
ele é utilizado largamente para diversas finalidades: desde o mero
entretenimento e diversão até a forma de integração social entre os mais
desafortunados. E é essa forma que iremos abordar: o teatro como
instrumento de integração.
TEATRO DO OPRIMIDO
“Quando alguém pega um monte de areia e faz uma obra, ele passa a ser um
escultor, assim como uma pessoa pega um monte de palavras e faz um
poema se transforma em poeta. Essa é a nossa proposta. Queremos com essa
maneira de fazer teatro, fazer fluir a capacidade artística contida
dentro de cada um. Todos nós precisamos exercitar todas as nossas
capacidades. Entendemos que é isso que precisa ser desenvolvido.
Precisamos exercitar todas as nossas capacidades e a potencialidade
estética. Admitamos que a palavra seja extremamente importante, mas
existe também o som, o toque, a imagem, o silêncio. O que está ao nosso
redor e percebemos e o que está ao nosso redor e não conseguimos
perceber. No teatro ninguém pode ser mero observador, é preciso entrar
em cena, se transformar no próprio artista e deixar fluir todo o seu
potencial artístico.”
Augusto Boal.
Não existe uma data especifica que defina o início do Teatro do
Oprimido (TO). Augusto Boal, o teatrólogo que elaborou tal método, tinha como
objetivo a democratização dos meios de produção teatral, que até então
eram voltados para as camadas mais altas da sociedade, a fim de
favorecer as classes mais baixas para o acesso a essa arte e transformar
a vida de milhares de pessoas, além de tornar uma nova técnica para a
preparação do ator, tornando o teatro mais natural, livre, visceral.
Portanto, seus primórdios se encontram entre as décadas de 1960 e 1970,
uma época perigosa para tal intento.
Inspirado nas propostas educacionais de Paulo Freire, Boal escreve
vários artigos sobre um tipo de teatro mais humanizado e educativo,
durante os anos de 1962 a 1973. Em 1975 é lançado o livro “Teatro do
Oprimido e outras poéticas políticas” pela editora Civilização
Brasileira. Nasce, nessa época, a primeira técnica do Teatro do
Oprimido: o Teatro Jornal (TJ). Inspirado no grupo norte-americano Living
Newspaper, da década de 1930, o TJ trabalhava dramatizações a partir de
notícias de jornal. A intenção era a conscientização das pessoas durante
a ditadura militar. Porém, em 1971, no auge da ditadura, Boal é preso,
torturado e exilado, mas mesmo isso não foi o suficiente para esse
teatrólogo humanista abandonar os seus ideais. É quando o Teatro do
Oprimido toma forma e força.
Os cinco primeiros anos de exílio de Augusto Boal foram passados na
Argentina, país natal de sua esposa, Cecília Boal. Já em 1971, o seu texto
Torquemada, sobre a Inquisição, é encenado em Buenos Aires e o
teatrólogo desenvolve a segunda técnica do TO: o Teatro Invisível (TI).
O TI é um teatro da/na vida real e cotidiana em que o ator
representa um papel e encena, mas os espectadores não tomam conhecimento
disso. Acontece em espaços públicos, nas ruas, no meio da multidão. O
ator pode estar fazendo o papel de um transeunte, de um mendigo, ou
qualquer outro personagem comum ao dia-a-dia de uma localidade. É um
teatro espontâneo, natural, improvisado, voltado para a reflexão do ator
e dos envolvidos conscientes.
Em 1973, no Peru, o TO é aplicado num programa de alfabetização
integral, dando início a mais uma nova técnica: o Teatro Fórum (TF).
Praticado hoje em mais de 70 países, o TF visa a interatividade entre o
público e os atores. Baseado em fatos reais, a peça mostra os conflitos
entre oprimidos e opressores, aonde o primeiro perde o confronto e o
público é convidado a tomar o lugar do protagonista (o oprimido),
tentando buscar uma solução para o problema apresentado. O Teatro Fórum é
a principal técnica do Teatro do Oprimido, pois atua no ponto central
dos dramas diários, despertando reflexões do público – ou, como Boal os
chama – os espect-atores.
Por volta desse mesmo período, Augusto Boal desenvolve uma outra
técnica: o Teatro Imagem (TImg). Voltado para as populações indígenas e os
descendentes de espanhóis na Colômbia, Equador, Venezuela e México.
Trata de assuntos como o racismo e demais questões sociais
segregatórias. A intenção é transformar em imagens cênicas o abstrato
como os sentimentos, a imaginação, as condições, tornando-os concretos
nas encenações e, assim, facilitando a compreensão, a assimilação dos
fatos, o debate, os questionamentos. Através das experiências vividas no
TImg, Boal escreve o livro “Murro em ponta de faca”, que o marca nessa
época.
Em 1976, Augusto Boal muda-se para Portugal e leva à Europa o seu
TO. Tempos depois, em 1979, funda em Paris o Centre du Théatre de
l’Opprimé. Surge a técnica introspectiva do TO, o Arco-íris do Desejo –
Método Boal de Teatro e Terapia, usado para as questões interpessoais e
individuais, para a introspecção e a auto-análise. Passa a ser usado com
propósitos terapêuticos, inclusive em instituições psiquiátricas.
Augusto Boal volta para o Brasil em 1986 a convite do professor
Darcy Ribeiro, então Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro,
durante o governo de Leonel Brizola. Cria-se a Fábrica de Teatro
Popular, da qual Boal torna-se o diretor, com o objetivo de fazer do
teatro uma arte de acesso a todos, estimular o diálogo e transformar a
realidade social.
Nesse mesmo ano, o teatrólogo em parceria com outros artistas
populares, cria o Centro de Teatro do Oprimido (CTO – Rio), na intenção
de difundir o TO pelo Brasil. O CTO – Rio é atuante até os dias de hoje,
com diversas programações voltadas para as áreas de saúde, educação e
social.
Surge, então, mais uma nova técnica: o Teatro Legislativo (TL) – que
rendeu, na prática, belos frutos: doze leis municipais, duas leis
estaduais e dois projetos ainda em trâmite.
No TL são encenados os problemas sociais da cidade, estado, país, e
os espectadores são estimulados a participarem, propondo leis e soluções
para os problemas apresentados, desenvolvendo nas pessoas o gosto pela
política e o exercício da democracia direta e participativa. Além dos
atores e dos espect-atores, o TL conta, também, com a participação da
“Célula Metabolizadora”, uma equipe formada por um especialista do tema
proposto, um acessor legislativo e um advogado.
Para finalizar – até o presente momento – em 2007 é desenvolvida a
Estética do Oprimido, cuja proposta é promover a expansão da compreensão
do mundo e a transmissão desses novos conhecimentos adquiridos através
da observação e compreensão aos demais indivíduos das comunidades onde
os atores estão inseridos.
“Esta tem, por fundamento, a certeza de que somos todos melhores do que
pensamos ser, capazes de fazer mais do que realizamos, porque todo o ser
humano é expansivo.” ~Boal~
A Estética do Oprimido é um programa de formação estética que integra experiências com o som, a palavra, a imagem e a ética.
O Teatro do Oprimido é um método teatral dividido em várias técnicas
que visam sempre a inclusão social das massas menos favorecidas da
sociedade no contexto sócio-cultural-educativo, mostrando que todos têm
capacidade de aprendizagem e desenvolvimento do ser, mostrando que o Teatro, uma antiga forma de arte e comunicação, também é uma ferramenta
de integração social, aproximando e igualando os seus indivíduos. Levado
às populações mais carentes, aos doentes nos hospitais, às escolas, aos
internos nos presídios, o Teatro do Oprimido tem como proposta a
mudança de vida e realidade das pessoas, ultrapassando barreiras e
levando alegria e esperança aonde isso não mais existia. Todos são
atores e espectadores no teatro da vida.

Augusto
Pinto Boal nasceu em 16 de março de 1931, no bairro da Penha, Rio de
Janeiro, e faleceu em 2 de maio de 2009, aos 78 anos, vítima de
leucemia. Foi diretor de Teatro, ensaísta, dramaturgo e teórico.
Formado em Engenharia Química, sendo Ph.D pela Columbia University, Nova
Iorque, EUA. Na mesma época, estuda dramaturgia na School of Dramatics
Arts, também em Colúmbia, com John Gasner. Em 1956, Boal volta ao Brasil
a convite de Sábato Magaldi e Zé Renato para dirigir o Teatro de Arena
de São Paulo. Escreveu cerca de dezoito livros, todos enfocando o Teatro, que foram publicados também em inglês, espanhol e francês. Seu
método do TO é usado no mundo todo, nos cinco continentes, sendo Boal um
dos nomes mais respeitáveis do meio. Tem uma verdadeira coleção de
prêmios, a maioria internacionais, incluindo a Unesco e o Nobel.
“Ser Cidadão não é viver em sociedade, e sim transformá-la.”
Augusto Boal
Fontes de consultas:
Jornal Capital Cultural #109, de maio de 2009 (Republicação e edição de entrevistas concedidas em 2006 e 2007)
Teatro do Oprimido: pt.wikipedia.org/Teatro_do_Oprimido
Site oficial CTO-Rio: www.ctorio.org.br
Augusto Boal: http://pt.wikipedia.org.wiki/Augusto_Boal e www.ctorio.org.br/CURRICULO_BOAL