20 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 08

Parte 8 – Canção do Exílio

Os dias se passaram, com a labuta que chegava às dezesseis horas diárias para Miriam. E foi com alegria e ansiedade que recebeu o sábado, contando as horas para o anoitecer.
Eram mais de sete horas da noite, quando chegou à praça, montada em sua bicicleta azul.

Ainda estava um pouco claro do dia que se findava, mas as luzinhas das árvores, do presépio e do coreto estavam acesas, fazendo um lindo jogo de luzes coloridas e  brilhos difusos com a atmosfera laranja-avermelhada do entardecer.

Miriam encostou a bicicleta no canteiro ao lado do banco verde de madeira e esperou em sua calma ansiedade.

Joshua morava numa das ruas transversais à Rodovia Amaral Peixoto, na área nobre do distrito, há duas  quadras do Praião. Em sua casa estilo colonial, de grande quintal bem ajardinado, onde sempre era tranquilo e silencioso, uma calorosa discussão acontecia, quebrando o sossego e a rotina daquela pequena família.

— Vocês não podem fazer isso comigo! Eu passei a semana inteira estudando até de noitão! Vocês não podem me proibir de sair por umas horinhas! Isso não é justo! É noite de sábado!

— Não é justo o que você aprontou conosco, garoto!  – Maria retrucava, muito aborrecida. — Você não faz outra coisa na vida além de estudar e ainda assim fica na dependência de três matérias!

— Eu não me adaptei direito ao colégio, mãe! E esse ano foi complicado pra mim, tá bom?! Ainda assim, tirei as melhores notas na maioria das matérias! Vocês estão sendo radicais comigo! Só quero dar uma volta, pô!

José passou a chave na porta da sala, encarando irritadiço ao filho. Pouquíssimas vezes Joshua viu  seu pai com aquela expressão medonha. Diziam que quando ele perdia a paciência, a universidade inteira se calava e se encolhia.

— Não há justificativas para o seu comportamento, Joshua! Você nos desrespeitou por duas vezes! Primeiro ficando em dependências e agora nos afrontando dessa maneira!

— Mas, pai...

— “Mas, pai” coisa nenhuma! Você está proibido de sair de casa até passar nas provas de recuperação! E ficará sem televisão e computador! Quero você em seu quarto, só diante dos seus livros e cadernos! Você tem tudo muito fácil, Joshua! O mínimo que pode fazer para retribuir à sua boa vida é tirar boas notas e passar de ano! Vá para o seu quarto agora, estudar!

Joshua engoliu a raiva e o pranto, se controlando para não sair chutando o que houvesse no caminho. Mesmo assim não resistiu em bater a porta do quarto com estrondo.

Encostou-se à porta, sentando-se no chão. Levou as mãos à cabeça, em desespero.

— Droga! A Miriam vai pensar que eu tô sacaneando ela! Por favor, meu Deus! Que ela não esteja me esperando na praça!

~*~*~*~

Eram quase nove horas e a noite descera completamente. A praça e arredores estavam com sua típica e minguada movimentação, de algumas crianças a brincar; dois ou três casais a namorar; um grupo de amigas que circulavam; outros mais dispersos que estavam pelas mesinhas do bar próximo; os dois pipoqueiros que ficavam em cada esquina.

As luzinhas brilhavam, piscavam, dançavam, fazendo uma coreografia ensaiada que se contrastava com a negritude da noite. Alguns cupins ainda se debatiam contra as luzes amarelas dos postes, e o Museu Casa de Casimiro de Abreu cerrava suas portas.

Miriam olhou pela última vez para o relógio de pulso. Levantou-se, pegou a bicicleta, montou e saiu... com sua luz apagada.

Continua...

19 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 07

Parte 7 – Canto de Amor

Eram quase oito da noite, mas por ser horário de Verão, ainda havia o clarão vermelho no céu azul escuro, que começava a se pontilhar de estrelas. A Árvore de Natal e o Presépio já estavam montados e a praça já estava limpa e livre dos resíduos de toda aquela arrumação. Todos estavam cansados, mas muito felizes, e o padre saía da igreja acompanhado de um séquito de fiéis, após o termino  da última missa do domingo. Logo a Praça As Primaveras se encheu de pessoas, com carrinhos iluminados de pipoca e algodão-doce espalhados pelos cantos da praça. Assim que as luzinhas da árvore e do presépio foram acesas, seria oficialmente inaugurado o Natal em Barra de São João.

O padre aspergia água nas decorações natalinas, dando as bênçãos ao trabalho artesanal e braçal de todos. Joshua estava muito cansado, afinal jamais antes fez tamanho esforço. Sequer, alguma vez, limpou o próprio quarto. Ao contrário dele, Miriam não demonstrava cansaço algum. Ela estava com aquele sorriso e olhos iluminados, olhando fixamente o pinheiro feito com folhas de palmeira, galhos e cipós, ansiosa para a inauguração. E, com  isso, Joshua percebeu que estava cansado mas feliz.

Com um estouro de fogos de artifício, as luzes coloridas foram acesas, iluminando a árvore e o presépio. Fios de pequenas lâmpadas foram espalhados pelas árvores da praça e no coreto, que ganhou uma decoração mais caprichada, com luzinhas que piscavam em cadências variadas e musiquinhas que tocavam marchinhas natalinas tradicionais.

— Bem vindo ao nosso Natal comunitário, Joshua! Sei que não é glamoroso como o da Capital, com a Árvore da Lagoa e os presépios do Jardim de Alah, mas espero que você curta, apesar de simples.

— É verdade... – O garoto voltou-se sorridente para Miriam. — Não é como de lá, que é só ostentação para gringo ver! Esse foi feito com carinho por todos nós e para nós mesmos! Estou muito feliz de ter participado disso...  com você!

Miriam não esperava uma declaração dessas e olhou assustada para Joshua. Encabulada, levou as mãos aos cabelos, fingindo que os arrumava para disfarçar o nervosismo.

Nem precisou disfarçar por muito tempo. Ao levar as mãos aos cabelos, percebeu que eles estavam soltos.

— Ai, não! Perdi o meu palito!

— Palito?

— É, de prender cabelo! Foi o avozinho Pedro que fez pra mim! Gostava tanto desse prendedor...

— Podemos vir aqui amanhã, procurar durante o dia. Com certeza tá caído aí em algum lugar.

— Duvido! A gente já varreu tudo. Se ele caiu por aí, deve ter ido pro lixo. De qualquer jeito, não dá pra eu  vir aqui durante a semana... só no outro sábado, e à tarde!

— Então... não nos veremos na semana?

A pergunta pegou Miriam de surpresa, mais uma vez. Depois dos instantes de assombro, ela sorriu, indo  em direção à sua bicicleta.

— Estou fazendo as provas finais na escola... entro de férias daqui a duas semanas e, aí... aí vou poder sair um pouquinho à noite, sim.

Joshua sorriu ante aquilo que lhe parecia uma aceitação de seu implícito convite.

— Também estou pra entrar de férias... então a gente vai poder vir aqui na praça ou andar pelo Praião?

Miriam sorriu encabulada, assentindo com a cabeça, que fazia seus cachinhos dourados pelo sol saltarem, enquanto montava na bicicleta. Aquele cenário bucólico, na noite brilhando com luzinhas de Natal, emocionaram Joshua de uma forma inédita, que ele não sabia explicar. Sendo o impulso mais forte do que ele, se aproximou da garota antes que ela partisse, levando a mão aos cachinhos dela, percebendo surpreso que eles eram macios como lã.

— Não fica chateada por perder o seu prendedor. Vou te dar um novo! Presente de Natal!

Se permanecesse mais um tempo ali, Miriam morreria! Não sabia o que era aquilo, mas o garoto a deixava  tão sem jeito quanto feliz. Embora ela não fosse tímida, no momento estava acanhada, sentindo até o rosto arder como se tivesse ficado exposto ao sol sem proteção.

Sem conseguir articular palavras, meneou a cabeça, concordando, e partiu o mais rápido que podia, se equilibrando heroicamente sobre a bicicleta, enquanto sentia o seu corpo ondular, como se resistisse às ondas do Praião. 

Continua...

18 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 06

Parte 6 – No Jardim

— Caramba! Você me assustou!

Foi tudo o que Miriam conseguiu dizer, depois de se libertar do transe em que ficou. Detestou-se no instante seguinte, pois foi grosseira sem querer.

— Foi mal! Mas eu não ia deixar você pegar sozinha essas caixas! Devem tá pesadas!

— Bem... um pouco.

Enquanto um grupo separava os “ramos do pinheiro” para montar a árvore, Miriam e Joshua separavam os enfeites. Do outro lado da praça, outro grupo organizava as peças que comporiam o Presépio.

Com um enfeite em mãos, que tinha a forma de uma tartaruga feita de cipó e conchas, Joshua olhou assombrado, finalmente percebendo os detalhes da peça.

— Uma tartaruga? De galho? Não deveria ser... sei lá... uma rena, um urso ou uma papai-noel? E plástico não seria mais durável? Isso tudo vai ficar exposto ao tempo!

Miriam parou de arrumar um dos enfeites, olhando com estranheza para o garoto, tendo um vinco entre os olhos. Abrandou sua expressão ao notar que ele não debochava ou criticava, mas apenas fazia um comentário inocente.

— Esse é um dos que eu fiz... – Miriam apontou para o enfeite. Joshua a olhou surpreso. — E isso é Cipó Caboclo, não galho. A tartaruga marinha é um animal da nossa região e já foi muito abundante por aqui, antes dessa poluição toda. Fizemos enfeites de mico-leão, tamanduá-bandeira, muriqui, arara, garça, que são bichos daqui. Não temos renas ou ursos na nossa região! E quanto ao material, usamos os nossos recursos naturais. A árvore, os enfeites e o presépio durarão o tempo que precisam durar.

Joshua admirou-se com a garota. Acabou de levar um sermão, mas isso, incrivelmente, não o aborreceu. Sentiu-se apenas um pouco infantil... para quê foi falar de renas e papai-noel de plástico? Que coisa mais idiota!

Miriam sorriu ante o desalento do carioca. O ricacinho do Rio de Janeiro tinha muito que aprender da vida... e ela não se importaria nem um pouco de lhe ensinar algumas coisas.

— Meu nome é Miriam... qual o seu?

— Joshua.

Miriam se levantou com uma das caixas sob o braço, estendendo a mão livre ao seu novo amigo.

— Nome legal, Joshua! Vem, vamos ajudar a montar a nossa Árvore de Natal!

O garoto sorriu, aceitando o convite. Carregou outras duas caixas e, junto com a menina, foi para onde um pequeno grupo arrumava a armação de bambu que receberia o forro de folhas de bananeira e de palmeiras, que formariam o pinheiro de Natal. 

Continua...

17 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 05

Parte 5 – Lembrança

Quando Joshua cansou de esperar e decidiu ir embora, já se levantando e andando em direção à Amaral Peixoto, o pessoal da montagem começou a chegar. Mais ao longe, pelo acostamento, vinha Miriam montada em sua bicicleta azul com cestinha trançada de junco. Nem é preciso dizer que Joshua desistiu de ir embora!

Foi sem timidez alguma que Joshua se ofereceu para ajudar, quando viu que Miriam trabalharia na montagem da Árvore de Natal.

Miriam, porém, não havia notado a presença do garoto, por conta da agitação que invadiu a praça. Assustou-se quando se abaixou para desencaixotar os enfeites que decorariam a árvore, e alguém abaixou-se no mesmo momento ao seu lado.

Seus olhares se cruzaram e ambos se reconheceram muito além de reconhecer a presença. Miriam e Joshua se reencontraram e suas almas se identificaram. Naquele ínfimo espaço de segundos, o tempo parou... 

Continua...

16 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 04

Parte 4 – As Primaveras

A principal praça de Barra de São João ocupava um quarteirão inteiro. Era repleta de canteiros de gramas e flores, com palmeirinhas, flamboyants e bougainvilles que coloriam e contrastavam o azul e verde do céu e da vegetação com suas flores laranja e carmim.

A pracinha ficava de frente ao casarão onde Casimiro de Abreu passou a infância, hoje transformado em museu, homenageando o Poeta. Alguns passos mais adiante, estava uma majestosa e centenária flamboyant. Abaixo da árvore, estavam duas estátuas em bronze: de Casimiro criança, correndo e brincando com um aro; de Casimiro adulto, apreciando o rio São João e escrevendo em seu caderno de notas.

Mais à frente, estava o escuro Rio São João. Em sua margem oposta, estava um manancial sobrevivente de restinga, onde se ouvia uma sinfonia de aves e outros bichos pela aurora e ao entardecer.

Quando Joshua chegou à pracinha, não havia quase ninguém ali. Somente os homens da prefeitura, que tiravam do caminhão-baú o material que seria usado na montagem das decorações natalinas, movimentavam o lugar.

Mesmo impaciente, Joshua esperou. Sentou-se em um banco de madeira, sob o caramanchão de bougainville. Ele ficara tão emocionado ao rever sua Sereia Negra que não ouviu o padre informando a todos para se encontrarem às quinze horas na praça... e ainda eram apenas treze e trinta. 

Continua...
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