24 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 12


Parte 12 – Última Folha

Armação de Búzios era, definitivamente, muito diferente de Barra de São João e Rio das Ostras. Essa cidade litorânea, um dos mais belos balneários do Rio de Janeiro, não era um refugio de veraneio como as outras cidades vizinhas, nem um conglomerado de “refugiados” como as demais estavam se tornando. Búzios era naturalmente linda, mas possuía o charme que permaneceu da antiga vila de pescadores e o glamour emprestado de Brigitte Bardot, que divulgou a cidade ao mundo e, até hoje, mais de 40 anos depois, ainda recebe turistas do mundo todo, sendo rota dos transatlânticos.

Madalena e Joshua não precisavam caminhar muito. Não muito longe da Rua das Pedras, estavam diversos artesãos com suas esteiras e algumas barraquinhas. E havia um grupo hippie com suas bijuterias e adornos rústicos, criativos, de peças ímpares. O que, para Joshua, ficou complicado. Ele não tinha a manha para discernir o que era bacana ou bonito; para ele, todas as peças eram esquisitas e não conseguia acreditar que alguém tivesse a coragem de usar aquelas coisas! Ele viu até um adorno feito com espinha de peixe, eca!

No mesmo instante, pensou em desistir, concluindo que era uma ideia idiota pensar que Miriam gostaria de  alguma daquelas coisas. Mas Madalena interferiu, percebendo a cara de desaprovação e a hesitação do irmão.

— Você pode não gosta, Josh, mas garanto que garotas na idade da Miriam se amarram nessas coisas hippongas. E agora que já estamos aqui, não vai desistir, não é mesmo?! Joshua concordou de má vontade e fez um esforço maior para olhar e escolher uma peça.

Como em um passe de mágica, seus olhos foram atraídos para uma outra esteira, forrada com veludo preto, e lá estava a peça que tanto queria, como fosse a única exposta e houvesse um holofote brilhando sobre ela: branca, com vazados que lembravam rendas, lasquinhas de madrepérola e um grande pérola disforme mas bonita.

Joshua sentiu-se atraído para a peça e sequer se lembrou de pedir licença para pegar o hashi.
O artesão sorriu ante o sincero interesse do garoto.

— Esse palito de cabelos é uma peça única, feita sob inspiração de Mãe Yemanjá! Foi esculpido em Jarina, que chamamos de marfim-vegetal, e recebeu caquinhos da parte interna, o nácar, de conchas brancas. A pérola na ponta larga do palito é de água-doce, que chamamos de pérola brasileira ou barroca.

— É... perfeito! Como conseguiu fazer o rendado no cabeçote do palito? É tão pequeno! Parece frágil!

— Broca de dentista. Usamos muitas ferramentas médicas para essas operações delicadas!

Foi com olhos brilhantes que Joshua estendeu o hashi ao artesão, para que ele embrulhasse.

— Vou levar! 

Continua...

23 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 11

Parte 11 – Moreninha


Ele jamais comprara algo para uma garota em toda a sua vida. O mais próximo disso foram os presentes para a mãe, mas sempre em companhia do pai e geralmente com a escolha dele.


Naquele momento vivenciava mais um algo novo: a busca pelo presente perfeito para a primeira menina perfeita da sua vida!


Prometeu a ela que lhe daria um novo palito para prender cabelos, embora achasse que os cabelos dela eram bonitos demais para ficarem presos. Mas promessa é dívida.  E ele estava duplamente endividado com Miriam!


Rodeou a manhã inteira de sábado em busca do tal prendedor. Nem tanto por lojas, que essas eram mínimas na região. Foi de Barra à Rio das Ostras de bicicleta, sempre atento em encontrar algum artesão pelas ruas.


Já cansado pela busca frustrada, xingou mentalmente por não encontrar nenhum hippie pelas praias, com suas esteiras cheias de badulaques e bijuterias rústicas e únicas. Figuras tão comuns nesses lugares, mas não quando mais se precisava delas!


Voltou para casa com as pernas doloridas de tanto pedalar. Tomou banho, almoçou e caiu na cama, adormecendo instantaneamente. Teve sonhos perturbadores ocasionados pela culpa e

frustração que sentia em relação à Miriam. Acordou sobressaltado, com sua irmã mais nova, de 25 anos,  lhe cutucando o ombro. Ela viera para passar o Natal com os pais e o irmão caçula... e ela era exatamente quem  Joshua mais precisava naquele momento delicado!


— Acorda, velhote! Um moleque da sua idade dormindo em plena tarde de sábado?! E ainda por cima nesse lugar maravilhoso de praias deliciosas?! Vai se aprontar, preguiçoso! Nós iremos jantar em Búzios e fazer comprinhas na Rua das Pedras!


Ir com sua irmã Madalena em Búzios? Fazer comprar na Rua das Pedras? 


Após um minuto de hesitação e rabugice por ter sido acordado daquele jeito, Joshua percebeu a muito conveniente oportunidade que se apresentava diante dele! Sim! Lá em Armação de Búzios ele encontraria o presente perfeito para a sua menina perfeita!


~*~*~*~*~


Depois que sua irmã ficou satisfeita com as fotos tiradas ao lado de Brigitte Bardot, ou melhor, da estátua dela forjada em bronze, Joshua e a família foram jantar. Era um restaurantezinho tradicional, com peças náuticas decorando o lugar e velas coloridas acesas sobre garrafas de vinho, com as ceras multicolores de milhares de velas anteriores  que se derreteram sobre o gargalo, formando uma escultura espontânea e única em cada “castiçal”.


José e Maria não tinham o mesmo pique dos filhos e preferiram não acompanhá-los na incursão pela Rua das Pedras. Ficaram esperando por eles na varanda de uma cafeteria que possuía uma vista privilegiada do mar de Búzios, com seus tradicionais transatlânticos brancos que mais pareciam enormes ilhas flutuantes e fantasmagóricas contra o cenário noturno.


Joshua entendeu isso como mais uma “conspiração do Universo” a seu favor. Precisava desabafar e sabia  que Madalena seria a melhor confidente e conselheira que ele poderia querer. Ela era a filha caçula antes de ele nascer. E um dos temores dos irmãos é que Joshua se tornasse muito dependente, tímido e inseguro, devido à superproteção que os pais poderiam dar ao filho temporão. Isso apenas não aconteceu porque seus dois irmãos mais velhos – Mateus e Isabel, que tinham idade para serem pais do caçula! – orientaram os próprios pais perante uma criança que não carecia de cuidados além dos que se devem dispensar a qualquer criança.


E, em muito pouco tempo, Joshua relatou toda a sua nova vida em Barra de São João, sem omitir Miriam e tudo que a envolvia.


Madalena olhou para o irmão com um sorrisinho enigmático. Não havia mais o que temer pela criação super protetora, que felizmente jamais existiu de fato... o irmãozinho caçula e temporão não era mais um bebê.


— Então você quer dar um  hashi para a Miriam, em substituição ao que ela perdeu?


— É, prometi isso... mas não encontrei nada que prestasse!


— Hum... um pauzinho especial para enfiar nos anéis de cabelos da namoradinha...  vamos nos afastar um pouco da Rua das Pedras e tentar encontrar algum hippie talentoso com balangandãs!


Joshua não captou a malícia nas palavras da irmã, e foi feliz com ela à caça ao hippie talentoso. 
Continua...

22 de dez. de 2013

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 10

Parte 10 – Palavras no Mar

Miriam ainda caminhava pelas praias em busca de conchas abandonadas pelos moluscos, para a confecção de seu artesanato feito com palha, junco, cipó ou vime. Gostava especialmente das bijuterias que lhe adornavam o pescoço e pulsos, com pontos e amarrações incrementados, entremeados com conchas, pedrinhas, miçangas ou sementes. 

Era final da tarde de sábado. Três semanas antes, havia tomado aquele bolo de Joshua. Nesse mesmo dia, horas antes, quando se desocupou dos afazeres da pensão, começou a trabalhar numa trama em tiras fininhas de palha de palmeira, entremeando com sementes e conchas minúsculas. Seria uma pulseira. E seria uma pulseira muito especial: seria o seu primeiro presente para o seu  primeiro namorado!

Suspirou decepcionada. Depois do fora que sofreu, não teve ânimo de pegar a peça para terminá-la, até aquele momento... afinal, chegou à conclusão depois de muito pensar, que se ela se decepcionou foi unicamente por sua própria culpa, pois foi ela quem criou expectativas... e as expectativas sempre levam a imaginar demais,  levam às ilusões!

~*~*~*~*~

Um dia antes foram as provas finais de Joshua. Apesar dos seus 14 anos, ele cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Sempre fora bom aluno, sendo dos melhores em todas as classes que frequentou, e não podia ser menos: por mais amorosos que fossem seus pais, eles eram seriamente rígidos quanto aos estudos. Todos os outros quatro irmãos sofreram um bocado com essa rigidez, especialmente Tiago, o Artista da família, que jamais se habituou à rigidez e aos  estudos tradicionais.

Joshua estava confiante. Tinha certeza de que tiraria notas altas em todas as provas. Estudou tanto e estava com tanta raiva por ter falhado com Miriam, que era uma questão de honra e vingança vencer as famigeradas provas e superar as dependências nas três matérias mais complicadas  do mundo!

Provas feitas. Interrogatório dos pais respondido de forma a satisfazê-los. Liberdade condicional consentida. E a primeira coisa que fez foi pegar a sua Mountain Bike de alumínio e rodar por toda Barra de São João, em busca de sua Sereia Negra.

Entretanto, por mais de duas horas procurando por Miriam, não a encontrou. Afinal, ele sequer sabia que ela, na realidade, morava em Aquarius, depois da ponte, e não em Barra.

Frustrado, pedalou até a praça, indo descansar em um banco próximo à Árvore de Natal que ajudou a montar. Lembrou-se de todos os minutos daquele dia especial em que passou ao lado de Miriam. E, ao pensar na promessa que fez a ela, uma estrela cadente riscou o céu noturno, exatamente sobre o topo da árvore. Joshua piscou algumas vezes, pois estrela cadente era coincidência demais! Então, provavelmente, seus olhos se enganaram com as luzinhas da decoração.

Levantou-se e parou, solenemente, diante da grande Árvore de Natal feita em palha, galhos e bambus. Reviveu, mais uma vez, as emoções daquele dia e o quanto aquilo lhe parecia mágico. Não. Fora mesmo uma estrela cadente!

— Eu faço um pedido... me dê a chance de pedir desculpas à Miriam e entregar a ela o presente que prometi!?

E a lampadinha na ponta da árvore, que iluminava a estrela feita de Cipó de Caboclo, brilhou de uma forma mais intensa. 

Continua...

21 de dez. de 2013

Feliz Litha

Enquanto no Hemisfério Norte a celebração é do Sabbat Yule, referente aos Solstício de Inverno, para nós é LITHA, o Solstício de Verão.

Embora este Sabbat não seja referência para o Natal, ele ocorre da mesma forma nessa época, mais precisamente hoje, dia 21. Portanto, FELIZ LITHA para todos nós!

Época do renascer, do brilhar, da abundância, do calor do sol - e põe calor nisso para nós, rs!

Litha marca o primeiro dia do verão e se situa entre Erelitha e Afterlitha no calendário germânico antigo e um dos oito sabás neopagães. O termo é usado especialmente no calendário Asatru.
Ocorre no Hemisfério Sul em 21 de Dezembro e 21 de junho no hemisfério norte.
È o momento quem que o poder do Sol chega ao seu ápice e as flores, folhagens e gramados encontram-se lindos e abundantemente floridos e verdes. Muitos dos círculos de pedra, como o Stonehenge, e dos monumentos pré-célticos estão alinhados com o nascer do Sol
Após a união da Deusa e do Deus em Beltane, O Deus está adulto, um homem formado, e tornou pai - dos grãos. Em sua plenitude, ele traz o calor do verão e a promessa total de fertilização com o sucesso do enlace feita com a Deusa. Sendo o auge do Deus, também prenuncia o seu declínio, nesse momento o Deus, após cumprir a sua função de fertilizador, dá seu último beijo em sua amada e caminha ao país do Verão (Outro Mundo), utilizando o Barco da Morte para morrer em Samhain. Em algumas tradições festeja-se a despedida do reinado do Deus do Carvalho (Senhor do Ano Crescente) e o início do reinado do Deus do Azevinho (Senhor do Ano Decrescente) que durará até Yule. Este é o único Sabá em que às vezes se fazem feitiços, pois acredita-se que seu poder mágico é muito grande. Fonte: Wikipedia.

Conto de Natal - Três Cantos - Parte 09

Parte 9 – Palavras a Alguém

Os pais e o avozinho de Miriam, que mal sabiam ler e escreviam apenas um pouco mais que os próprios nomes, estavam radiantes de orgulho ao ver a filha receber o diploma da formatura simbólica da terceira serie do ensino  noturno para adultos.

Miriam e mais duas outras meninas eram as mais jovens daquela turma, cuja aluna mais velha era uma senhorinha de 70 anos.

Todos estavam muito felizes. O que para muitas pessoas passar de ano no Nível Fundamental ou mesmo frequentar uma escola fosse algo tão comum que não merecia atenção, para aquelas pessoas que ali estavam, fossem alunos ou professores, aquela formatura simbolizava uma etapa vencida: simboliza uma vitória!

Em casa, um bolo de abacaxi confeitado, refrigerante, sorvete e batata frita era o banquete de comemoração que aguardava pela formanda. Miriam estava sorridente como sempre, mas gostaria de poder ter dividido essa alegria com Joshua.

~*~*~*~*~

Era quinta-feira de noite e faltavam cinco dias para o Natal. Como ordenado, Joshua passou dias e noites com a cara enfiada em livros e cadernos, entre números, equações e tabela periódica. Conseguiu, com muito custo, sobrepujar a vontade de rever Miriam, sacrificando todos os pensamentos em relação a ela. Conformava-se ao imaginar que, a  essa altura do seu sumiço, ela tenha achado que ele era  só um playboyzinho calhorda que apenas queria se divertir com a cara dela.

Foi um idiota por não perguntar onde ela morava, ou pedido o número do celular dela! Foi ainda mais idiota por não ter se lembrado de dar o número do seu próprio celular! Aquela garota o deixou completamente fora do eixo e tudo que vivenciaram naquele dia, durante a montagem da decoração natalina na Praça As Primaveras, foi tão  inédita que ele simplesmente esqueceu-se das facilidades do mundo moderno.

Parou de repente ao meio de um cálculo de física, por causa de um pensamento estranho, quase filosófico...  que nem a mais atraente modernidade tem o menor valor ou importância no momento em que se vivencia uma emoção verdadeira...

Será que, ao se fugir para o mundo virtual através  de maravilhosos aparelhos eletrônicos, não estará se evitando viver verdadeiramente ao experienciar emoções e sentimentos? Pois, por mais que se experimente sensações no mundo virtual, nenhum deles sequer se equipara ao final de tarde numa pracinha, por exemplo...

Joshua sacudiu a cabeça com raiva. Ele não podia se distrair e mais uma vez se traía ao se lembrar do dia na praça, ao lado de Miriam. Amanhã será sua última prova e se ele reprovar... bem capaz do pai enfiá-lo em um colégio interno! 

Continue...

Feliz Yule!

Para os não-cristãos, um FELIZ YULE, que é a comemoração original desta festividade a que hoje chamamos de Natal!

É o tempo em que a vida hiberna para se renovar. É o tempo em que a Roda do Ano chega ao seu fim para recomeçar. É o tempo das provações, de adormecer os sentidos e despertar mais belo e brilhante como o Sol, que sempre renasce.

Para a Vida que resiste. Para a Vida que gera. Para a Vida que recomeça!

Feliz Yule!
 (Para o Hemisfério Norte, onde é o Solstício de Inverno) 


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