8 de mar de 2013

Conto - Casulo & Mortalha

 Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Em homenagem, transcrevo a primeira parte do conto Metamorfoses, publicado no meu livro Contos Sem Classe, Textos Sem Curso.

Somos todas lagartas em transformação.

1 – Casulo & Mortalha

Dona Cândida sempre fora uma mulher divina e de prendas esmerosas. Sua casinha, embora antiga e humilde, estava sempre cuidadosamente arrumada, limpa e perfumada. Cortinas de renda nas janelas; paninhos bordados nos encostos das poltronas e nas mesinhas de cabeceira; toalhas e trilhos de mesa feitos de tricô; tapetes feitos em tear manual... entre outras coisas feitas pela boa senhora.
 
Pequenos enfeites de porcelana e vasos com flores naturais davam o toque final na decoração. As flores, colhidas no próprio jardim da residência, eram responsáveis pela casa estar sempre
cheirosa e com uma leveza tal, que qualquer visitante que ali chegasse, logo sentia a vibração dessa energia boa na forma de um repentino bem estar, uma alegria gratuita borbulhando no peito.

E, por isso, muitas pessoas gostavam de visitar Dona Cândida, às vezes sem ter sequer um motivo importante que justificasse o incômodo à gentil senhora.

Os muitos dos tesouros de Dona Cândida se encontravam em seu jardim, não apenas nas plaquinhas de madeira pintada com dizeres felizes ou nos bichinhos de cerâmica que faziam uma decoração divertida, mas, principalmente, nas suas belas folhagens e flores, todas plantadas e cuidadas pela idosa como uma mãe cuida de seu bebê. Cambuquinhas de água para os pássaros; bebedouros para beija-flores; casinhas em pontos estratégicos para servirem de ninho e um berçário de lagartas.

Mas como alguém tem coragem de criar lagartas, a ameaça n° 1 dos jardins?!
 
Dona Cândida sabia que se ela quisesse que as suas flores atraíssem borboletas, era preciso deixar que as lagartas vivam primeiro. E onde, em plena cidade grande de asfalto e concreto, uma lagarta poderia viver se não num jardinzinho particular?

A gentileza de Dona Cândida se estendia até esses bichinhos tão incompreendidos, e ela reservava uma hortinha, um pedaço pequeno do seu quintal, para as lagartas. E fazia isso há tantos anos que já perdera a conta das gerações de lagartas e borboletas que se criaram sob a sua proteção.

Em sua crença, Dona Cândida via na insignificante vida da lagarta e em todos os processos de sua metamorfose, a síntese da caminhada do Espírito como, inclusive, viam também alguns filósofos antigos. E pensava consigo mesma na sua própria metamorfose e sentia (como se sente a aproximação de um grande dia, fato importante ou viagem esperada) que a sua maior transformação estava por vir.

Durante as tardes, após a soneca do almoço, Dona Cândida sentava em sua poltroninha ao lado da janela que escancarava para que a claridade, o vento e o perfume de suas rosas entrassem na sala. E ali permanecia até à noite, quando já não era mais possível fazer os seus trabalhos manuais, mesmo com a ajuda da luz artificial.

Tinha por companhia a roseira do jardim, que expandia os seus galhos até para quase dentro da sala. Da janela se podia apreciar as rosas amarelas em todas as suas etapas, desde tenros botões até à rosa desabrochada lascivamente, com suas pétalas se dobrando para trás. E, claro, havia as rosas em sua etapa final, quando suas pétalas, já secas, se despencavam à menor brisa.

Havia mais uma pequena companhia que Dona Cândida nunca chegou a perceber: uma minúscula lagarta que construía entorno de seu frágil corpo um casulo feito de pequeninos galhos e pedacinhos de folhas secas da roseira. E a lagarta vivia a sua solitária vida ao lado da janela da solitária idosa, percorrendo para cima e para baixo no mesmo galho.

Enquanto a lagartinha se alimentava, crescia e construía interminavelmente o seu casulo, e a roseira preparava uma nova leva de belas rosas douradas, Dona Cândida se esmerava em seu trabalho que considerava o derradeiro. Com lã fina e leve, na cor branca, ela tricotava um vestido longo, de mangas compridas e gola alta.
 
Ela tricotava a sua própria mortalha.

***

Os dias frios do inverno estavam cada vez mais distantes e, a cada manhã, o sol nascia mais forte e mais brilhante. Os arbustos do jardim começavam a florescer, explodindo em cores e perfumes. A roseira, a mais exuberante dos arbustos, começava a libertar os seus botões, que desabrochavam sem pudores.

E a pequena lagarta, não mais tão pequena, há muito que não dava sinais de vida. Ficara ali, dependurada no galho da roseira, que agora sustentava uma penca de botões que começavam a se abrir. Quietinha e imóvel em seu casulo, o mundo sequer imaginava o que ela aprontava lá dentro.

E o mundo também não sabia o que Dona Cândida aprontava. Apesar das várias visitas que recebia toda semana, eram raras as que lá iam interessadas em sua gentil pessoa.

E o seu longo vestido branco, tricotado com a mais leve lã, estava pronto. A tricoteira dava os arremates finais, perpassando fitinhas de seda branca na gola e nos punhos.

Era setembro. E era o primeiro dia de primavera. O sol espalhava calor através dos seus raios brilhantes, lançando a sua luz quente para dentro da sala. E, por instantes, Dona Cândida pensou que fora essa luz que a cegou, pois, assim que terminou os laços e descansou o vestido em seu colo, a sua vista tornou-se branca, como se muita luz tivesse invadido as suas retinas. Recostou-se no espaldar da poltrona, sentindo a sua respiração travar na garganta e o coração inchar-se pela última vez.

Dona Cândida foi encontrada pela vizinha horas depois, fria e imóvel. Em suas mãos, o delicado vestido que foi usado, no dia seguinte, como mortalha em sua festa fúnebre.

O jardim expandiu-se em cores com o desabrochar de suas rosas. E a lagarta da roseira, que permaneceu por longos dias imóvel, como morta, rasgou o seu casulo feito de galhinhos e espremia o seu corpo, muito maior que o rasgo, para poder se libertar de seu invólucro. Horas depois, ela exibia, orgulhosa, as suas asas coloridas para as suas irmãs rosas que, todas juntas, a borboleta e as flores, exibiam a plenitude de suas exuberâncias! E o céu primaveril era o céu dos anjos, de um azul profundo com branquíssimas nuvens lanosas. O céu vestia-se em seu mais belo traje para receber o seu mais novo anjo.

***

O cemitério era um bonito campo gramado, com um verde mais intenso e brilhante por conta do sol vespertino. Havia muitas árvores espalhadas pelo campo, de folhas miúdas e outras que só possuíam flores. Os jazigos eram obras de artes, com suas estátuas brancas de santos e anjos.

Muitas pessoas compareceram à festa fúnebre de Dona Cândida. Em seu caixão ornamentado, a boa senhora envergava o vestido que tricotou. E rosas, muitas rosas, a cobriam da cabeça aos pés.

No badalar das 4 da tarde, o seu caixão foi lacrado e baixado numa cova simples aberta no gramado. E apenas uma placa de cimento com seu nome e suas datas indicava que ali ela fora plantada.

E tal qual como as suas rosas e as suas borboletas, Dona Cândida desabrochou. Como a pequena lagarta, fez um rasgo em seu casulo de lã e madeira, erguendo-se lentamente para que suas asas pudessem ganhar força para se expandirem. E levantou-se, desenrolando-se, flutuando acima do gramado. O seu corpo já não era mais flácido e cansado; os seus cabelos já não eram mais curtos e brancos. Avançou para o céu noturno, na direção da lua em forma de foice, com suas enormes asas brancas arregaçadas como suas voluptuosas rosas. E, numa roseira próxima ao túmulo, uma lagartinha era a única testemunha daquela metamorfose, sonhando com o dia que também se tornaria borboleta.

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