1 de set de 2012

"Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno"

Jamais pensei que um dia eu concordaria com o ponto de vista de um bandido, menos ainda que conspurcaria este blog comentando a respeito disso! Isso é apenas para lembrar, mais uma vez, do provérbio "Nunca digas que jamais beberás dessa água".

É, o mundo gira. E quanto mais ele gira, pior me parece. E coisas desse tipo não combinam, de forma alguma, com a beleza que é este mundo, com o sábado ensolarado que hoje está, com o ventinho fresco e os passarinhos cantando lá fora. Não combina, mas não é uma opção nossa que tais coisas não façam parte da nossa sobrevida. Elas fazem parte, de uma forma ou outra, a gente querendo ou não, gostando ou não.

O texto que você lerá abaixo é antigo. Trata-se de uma polêmica entrevista publicada no Jornal O Globo feita com o líder do PCC (que, pasmem!, há até uma página detalhada na Wikipédia!) Marcos Willians Herbas Camacho, vulgo Marcola.

Recebi esse texto por email, num pps. Raramente leio os pps, mas como esse era um arquivo pequeno, abri só por curiosidade e, depois da primeira página, tive que ler todo o texto. Então fui fazer uma pequisa, pois fiquei, no mínimo, intrigada. O texto, a entrevista, é verídico. Porém, pasma mesmo fiquei ao ver que havia pessoas que se indignaram foi com o jornal ter entrevistado um bandido!

Cara, indignação mesmo é saber que charfundamos na merda e não há meios de sair disso! Não só pela dimensão e abrangência que o crime organizado no país toma, mas, principalmente, por isso ser o resultado de décadas de descaso do poder público!

Lamento MUITO concordar com o tal Marcola, mas estamos mesmo todos no inferno!

E nós aqui preocupados com Literatura...

O Globo entrevista o traficante Marcola 

O jornal O Globo entrevistou o traficante Marcola, “capo” do PCC de São Paulo. A entrevista foi publicada em maio, mas deve ser revista de vez em quando para que não nos esqueçamos das razões que nos levaram a criar o Instituto Brasil Verdade.

Você é do PCC ?

- Mais o que isso? Eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e
invisível... Vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias. A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer" essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu só? Sou culto... Leio Dante na prisão...

* Mas... a solução  seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política,  crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de  ser sob a batuta quase que de uma tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou  você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...)  e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...) E  tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

* Você não tem medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo...  Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.   Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha...Vocês  nunca esperavam esses guerreiros do pó, né ?  Eu sou inteligente.  Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma  terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo se diplomando nas cadeias, como um  monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.  Vocês não ouvem as gravações feitas com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

* O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no microondas"... ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de  três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de  palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos devocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

* Mas o que devemos fazer?

-Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

* Mas... não haveria  solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a normalidade". Não há mais  normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema.

Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
 
Entrevista retirada do site do Instituto Brasil Verdade.
     

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