26 de jan de 2012

Conto - Amores Platônicos

Um continho para quebrar a monotonia. "Amores Platônicos" está publicado na Coletânea "Contos Sem Classe".

O parque era o lugar mais agradável daquela cidade, onde as pessoas de diversas ocupações e estilos de vida iam para buscar descanso, tranquilidade ou distração, não exatamente tudo isso e nesta ordem.

Havia duas ou três árvores muito antigas, daquelas que parecem ser várias grudadas numa só. Elas até tinham nome e sobrenome escolhidos por votação popular décadas atrás. As outras árvores do parque eram jovenzinhas se comparadas às três anciãs. Havia Ipês, Paus-ferros, Patas-de-vacas, Acácias que, em época de florescência, eram um espetáculo para a visão e olfato.

Também havia uma lagoa artificial, com um chafariz ao centro encarregado de oxigenar a água. E nessa lagoa viviam muitos peixes ornamentais, tartarugas, gansos, patos e até garças oportunistas. Estas últimas não eram moradoras do parque, apenas lá iam para uma refeição fácil, já que peixinhos tinham em abundância, o que não era mais uma realidade nos rios naturais e no mar da beira da praia. Então, com tantos agradáveis atrativos, não é de se admirar que os citadinos enchessem o parque nos finais de semana e feriados.

Lá também era o refúgio dos amantes da arte: pintores, desenhistas, fotógrafos, músicos e escritores. Trabalhavam em suas obras ou usavam o lugar para apresentá-las ao público ocasional. E este era o caso de Gabriel, poeta e escritor lírico que gostava de buscar naquele lugar as influências para suas obras.

E havia uma grande influência ali para ele... uma verdadeira inspiração: a sua musa secreta.

Por meses, há quase um ano, Gabriel via uma moça que, para ele, era linda como Iracema. Naquela miscigenação única, encontrável apenas em nossa bela terra, a moça nasceu abençoada com uma pele lisa de urucum, cabelos negros e escorridos, e olhos puxados com as íris que variavam de cor conforme a luz: ora eram castanhos claros, ora verdes, ora dourados. E, o que havia de mais belo e divino nela, aos olhos de Gabriel: a sua vivacidade e sua luz que eram transmitidas em seu olhar luminoso, no sorriso espontâneo, nos gestos suaves. Há meses que Gabriel via a moça chegar ao parque com uma bolsa grande de algodão pendurada no ombro, de onde retirava uma manta e estendia sobre o gramado, sob a proteção de uma das três árvores anciãs. Sentava-se tão levemente, com seu longo vestido esvoaçante, que parecia flutuar, e as saias se esparramavam em toda a volta dela. Ajeitada, a ninfa cabocla puxava de sua bolsa um livro que prontamente começava a ler. Gabriel até já tinha notado que era um livro diferente por semana e anotado quantos ela lera até então.

Ele era ainda um homem jovem com algum belo atrativo. Não era tímido, senão jamais seria capaz de ir à frente do público para recitar seus próprios poemas no saraus que costumava frequentar. Também não era nenhum intelectual recluso, que não estava acostumado a lidar com pessoas, muito pelo contrário; era professor universitário acostumado a lidar com a diversificada fauna humana.

A moça o atraia de tal forma que se poderia dizer que ele vivia uma paixão platônica e, em seus devaneios, era assim que preferia que permanecesse. Preferia isso a arriscar perder tudo. Mas, qual “tudo”? Preferia a paixão platônica a perder sua musa inspiradora de seus poemas e a heroína de seus romances.
Agora, o porquê de um homem jovem, bem apessoado, de bom intelecto e educação, e um nível social decente, acreditar que se investisse na paquera, acabaria por levar um fora, era uma incógnita... mas, se observar atentamente, descobrirá a resposta.
Ana era uma cabocla linda em seus vinte e poucos anos. A beleza de sua pele e de seus cabelos herdara de seu pai, um indígena Guarani que, há muitos anos, deixara o interior para estudar e trabalhar na cidade. A beleza de seus olhos e de suas formas ela herdara da mãe, filha de imigrantes europeus, que ganhava a vida como empregada doméstica em casas de família.

Ela era uma moça humilde, que lutava para ser cada vez melhor, suportando empregos desgastantes e mal remunerados durante o dia e buscando uma melhor instrução nas escolas noturnas que nem sempre conseguia dar continuidade sequenciada. Por causa da vida difícil da família pobre, Ana parava os estudos, às vezes por anos, tanto que aos vinte e poucos ainda perseverava em terminar o nível médio.

Mas, mesmo com as dificuldades para adquirir instrução, Ana nunca deixava de estudar.

Desde que aprendera a ler, mesmo que tardiamente aos quase 18 anos, ela estava sempre lendo algo. E, depois que se associou à biblioteca municipal do bairro, ela praticamente lia um livro por semana, mesmo com o tempo escasso livre que possuía.

O maior tempo que dedicava às suas leituras era nas tardes de sábado, quando voltava do trabalho que lhe tomava toda a manhã e adiantava algum serviço de casa que somente dava para fazer nos finais de semana. Embora ela não pudesse se dar ao luxo de passar horas com seus livros, Ana fazia o sacrifício de deixar algumas coisas de lado para isso... pois eram os livros que traziam cor e sabor à sua vida insípida. E as idas ao parque traziam conforto e alento ao seu coração, pelos diversos atrativos que lá havia: as árvores, o cheiro sempre fresco de mato; as aves que andavam e voavam por todos os cantos; a alegria das crianças; o clima harmônico que lá se encontrava pelas pessoas com bons pensamentos na cabeça e bons sentimentos no coração e... pelo rapaz tão bem alinhado que sempre estava por lá, nos bancos de madeira que ficavam na outra margem da lagoa artificial, sempre com um caderno e caneta em mãos, sempre escrevendo algo. Mesmo à distância, Ana percebia, pela aparência e comportamento dele, que ele era uma pessoa de grande instrução e de nível social muito mais elevado que o dela.

E na sua timidez de moça humilde que sempre teve que lutar muito para ter o básico, Ana vivia a sua paixão platônica, um amor recolhido que não ousava, sequer, a contar a sua melhor amiga, que era a mamãe. Ela sabia, porque era assim que a sociedade afirmava desde que o mundo é mundo, que as pessoas de níveis diferentes não podem se misturar, nem sequer para conversar sobre o tempo ou comentar o acontecimento do dia.

Ana era uma moça que tinha toda riqueza do mundo, menos a riqueza que o mundo valoriza, portanto, ela mantinha um sentimento tão bonito bem escondido, pois preferia sentir a dor de jamais torná-lo concreto, do que viver a amargura da decepção e da rejeição que tinha a certeza que sofreria se ousasse aproximar do rapaz escritor.

E quando ela chegava a essa conclusão, dos mesmos devaneios que sempre eram concluídos da mesma forma sábado a sábado nos últimos meses, há quase um ano, ela já não conseguia mais prestar atenção à leitura e sequer conseguia enxergar as palavras, pois seus olhos tornavam-se rasos d’água pela autopiedade, lamentando a sua sorte e a tolice de seu coração por criar tais ilusões só para feri-la.

Então Ana engolia as lágrimas, marcava a página em que havia parado, fechava o livro, recolhia a manta e se retirava, evitando a custos espiar pela última vez o belo rapaz escritor. E, como todos os sábados, ia embora resoluta de que não retornaria mais tão cedo, até que seu coração bobo tomasse vergonha e parasse de inventar ideias que só davam certo nas histórias dos livros e não na vida real.

Com pesar, Gabriel parava os seus escritos e observava a linda cabocla ir embora, com seus cabelos e vestidos longos se esvoaçando às costas. Era mais um sábado e ele ganhara mais algumas páginas de texto escrito, mais perdia mais uma vez a chance de fazer com que alguns daqueles escritos saíssem do papel e ganhassem o mundo material. Mas preferia assim a perder sua musa. Porém, ainda não passou por sua cabeça que poderia perdê-la de qualquer forma. E pela cabeça de Ana, que apenas pensava nas perdas, também não passava de que ela poderia ganhar romances e poesias reais.

E dois corações apaixonados platonicamente, mantinham-se na ilusão da perda e das burras convenções sociais. Cada um elevando o outro à níveis inalcançáveis que não se permitia sequer tentar, pois, derrotados desde antes de começar, arriscar-se nem tinha vez.
FIM
Este texto foi escrito em 2010 para um concurso literário de Vitória de Santo Antão. Para caber na proposta, este, que é o texto integral, perdeu até 2 páginas de textos. O texto não foi classificado e foi parar na coletânia Contos Sem Classe, criada para albergar exatamente esses meus pobres filhos rejeitados.
Em meio as minhas muitas tralhas escritas, contos e romances iniciados e postos seguidamente em hiatus, está uma continuação para Amores Platônicos. Nada posso prometer, mas assim que eu tomar tendência na vida, este é mais um conto que pode tornar-se um romance. Quem sabe um dia?

Crédito das imagens:
1ª - Moça lendo no jardim, 2009. Barbara Jaskiewicz 
2ª - Mikhail Vasilyevich Nesterov

2 comentários:

Cris Shitinoe disse...

Adorei!!!

'...Ana era uma moça que tinha toda a riqueza do mundo, menos a riqueza que o mundo valorizava...'


Esta frase diz tudo!!!

Como sempre, seus textos tem uma fluidez que sem percebermos, já está no final... daí a gente usa o mouse ou o rolete do mesmo para ir até o final para ver se não tem mais alguma coisa... rsrsrssrs...

Achei romântico, lindo, mas é triste ver como 2 pessoas que poderiam criar uma relação muito linda, não a viverem por medo de se arriscar. Ela, por auto piedade e ele, por dar mais valor ao seus escritos que ao "e se..."

Mesmo assim, foi lindo!

Pat Kovacs disse...

Oi, Cris!
Estou feliz de ter por aqui!!
É uma honra ter A Leitora Perfeita em nosso cast de amigos ^^
Vc me tranquiliza ao dizer que meus textos fluem, rsrs. Como eu leio palavra por palavra e depois junto tudo na frase, em busca de falhas e erros para consertar, não consigo perceber a fluidez do texto e sempre acho que é algo meio "robótico".
Ah, também gosto de happy end... deve ser por isso que bateu a vontade de alongar essa história. O único problema sou eu mesma, que não me organizo para fazer a fila de escritos inacabados andar :/
Obrigada por vir aqui e comentar, Cris! E se vc estiver participando do sorteio, deixe um comentário na postagem do sorteio, pois é a partir de lá que terá o nº para ser sorteado.
Bjos!!

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