17 de out de 2012

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido

 
“O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores – porque atuam – e espectadores – porque observam. Somos todos
ESPECT-ATORES’”
- Boal.

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido
“O teatro como instrumento de integração”

O Teatro é uma das mais antigas formas de expressão criada pelo homem e, igualmente, uma antiga arte que veio no encalço da literatura, contando histórias através de gestuais, vocalizações e (ou apenas) sonorização, dança, música, expressão. No passado, fora uma poderosa ferramenta de comunicação para as massas, com apresentações em locais públicos de grande transição, sendo utilizada não apenas para contar histórias para divertir e entreter, mas também como forma de protesto e de propagação de ideias, usada para fins políticos e revolucionários.

Como tudo, o Teatro evoluiu e muitas técnicas foram desenvolvidas, e hoje ele é utilizado largamente para diversas finalidades: desde o mero entretenimento e diversão até a forma de integração social entre os mais desafortunados. E é essa forma que iremos abordar: o teatro como instrumento de integração.
 

TEATRO DO OPRIMIDO

“Quando alguém pega um monte de areia e faz uma obra, ele passa a ser um escultor, assim como uma pessoa pega um monte de palavras e faz um poema se transforma em poeta. Essa é a nossa proposta. Queremos com essa maneira de fazer teatro, fazer fluir a capacidade artística contida dentro de cada um. Todos nós precisamos exercitar todas as nossas capacidades. Entendemos que é isso que precisa ser desenvolvido. Precisamos exercitar todas as nossas capacidades e a potencialidade estética. Admitamos que a palavra seja extremamente importante, mas existe também o som, o toque, a imagem, o silêncio. O que está ao nosso redor e percebemos e o que está ao nosso redor e não conseguimos perceber. No teatro ninguém pode ser mero observador, é preciso entrar em cena, se transformar no próprio artista e deixar fluir todo o seu potencial artístico.”                                   
Augusto Boal.

Não existe uma data especifica que defina o início do Teatro do Oprimido (TO). Augusto Boal, o teatrólogo que elaborou tal método, tinha como objetivo a democratização dos meios de produção teatral, que até então eram voltados para as camadas mais altas da sociedade, a fim de favorecer as classes mais baixas para o acesso a essa arte e transformar a vida de milhares de pessoas, além de tornar uma nova técnica para a preparação do ator, tornando o teatro mais natural, livre, visceral. Portanto, seus primórdios se encontram entre as décadas de 1960 e 1970, uma época perigosa para tal intento.

Inspirado nas propostas educacionais de Paulo Freire, Boal escreve vários artigos sobre um tipo de teatro mais humanizado e educativo, durante os anos de 1962 a 1973. Em 1975 é lançado o livro “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas” pela editora Civilização Brasileira. Nasce, nessa época, a primeira técnica do Teatro do Oprimido: o Teatro Jornal (TJ). Inspirado no grupo norte-americano Living Newspaper, da década de 1930, o TJ trabalhava dramatizações a partir de notícias de jornal. A intenção era a conscientização das pessoas durante a ditadura militar. Porém, em 1971, no auge da ditadura, Boal é preso, torturado e exilado, mas mesmo isso não foi o suficiente para esse teatrólogo humanista abandonar os seus ideais. É quando o Teatro do Oprimido toma forma e força.

Os cinco primeiros anos de exílio de Augusto Boal foram passados na Argentina, país natal de sua esposa, Cecília Boal. Já em 1971, o seu texto Torquemada, sobre a Inquisição, é encenado em Buenos Aires e o teatrólogo desenvolve a segunda técnica do TO: o Teatro Invisível (TI).

O TI é um teatro da/na vida real e cotidiana em que o ator representa um papel e encena, mas os espectadores não tomam conhecimento disso. Acontece em espaços públicos, nas ruas, no meio da multidão. O ator pode estar fazendo o papel de um transeunte, de um mendigo, ou qualquer outro personagem comum ao dia-a-dia de uma localidade. É um teatro espontâneo, natural, improvisado, voltado para a reflexão do ator e dos envolvidos conscientes.

Em 1973, no Peru, o TO é aplicado num programa de alfabetização integral, dando início a mais uma nova técnica: o Teatro Fórum (TF). Praticado hoje em mais de 70 países, o TF visa a interatividade entre o público e os atores. Baseado em fatos reais, a peça mostra os conflitos entre oprimidos e opressores, aonde o primeiro perde o confronto e o público é convidado a tomar o lugar do protagonista (o oprimido), tentando buscar uma solução para o problema apresentado. O Teatro Fórum é a principal técnica do Teatro do Oprimido, pois atua no ponto central dos dramas diários, despertando reflexões do público – ou, como Boal os chama – os espect-atores.

Por volta desse mesmo período, Augusto Boal desenvolve uma outra técnica: o Teatro Imagem (TImg). Voltado para as populações indígenas e os descendentes de espanhóis na Colômbia, Equador, Venezuela e México. Trata de assuntos como o racismo e demais questões sociais segregatórias. A intenção é transformar em imagens cênicas o abstrato como os sentimentos, a imaginação, as condições, tornando-os concretos nas encenações e, assim, facilitando a compreensão, a assimilação dos fatos, o debate, os questionamentos. Através das experiências vividas no TImg, Boal escreve o livro “Murro em ponta de faca”, que o marca nessa época.

Em 1976, Augusto Boal muda-se para Portugal e leva à Europa o seu TO. Tempos depois, em 1979, funda em Paris o Centre du Théatre de l’Opprimé. Surge a técnica introspectiva do TO, o Arco-íris do DesejoMétodo Boal de Teatro e Terapia, usado para as questões interpessoais e individuais, para a introspecção e a auto-análise. Passa a ser usado com propósitos terapêuticos, inclusive em instituições psiquiátricas.

Augusto Boal volta para o Brasil em 1986 a convite do professor Darcy Ribeiro, então Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, durante o governo de Leonel Brizola. Cria-se a Fábrica de Teatro Popular, da qual Boal torna-se o diretor, com o objetivo de fazer do teatro uma arte de acesso a todos, estimular o diálogo e transformar a realidade social.

Nesse mesmo ano, o teatrólogo em parceria com outros artistas populares, cria o Centro de Teatro do Oprimido (CTO – Rio), na intenção de difundir o TO pelo Brasil. O CTO – Rio é atuante até os dias de hoje, com diversas programações voltadas para as áreas de saúde, educação e social.

Surge, então, mais uma nova técnica: o Teatro Legislativo (TL) – que rendeu, na prática, belos frutos: doze leis municipais, duas leis estaduais e dois projetos ainda em trâmite.

No TL são encenados os problemas sociais da cidade, estado, país, e os espectadores são estimulados a participarem, propondo leis e soluções para os problemas apresentados, desenvolvendo nas pessoas o gosto pela política e o exercício da democracia direta e participativa. Além dos atores e dos espect-atores, o TL conta, também, com a participação da “Célula Metabolizadora”, uma equipe formada por um especialista do tema proposto, um acessor legislativo e um advogado.

Para finalizar – até o presente momento – em 2007 é desenvolvida a Estética do Oprimido, cuja proposta é promover a expansão da compreensão do mundo e a transmissão desses novos conhecimentos adquiridos através da observação e compreensão aos demais indivíduos das comunidades onde os atores estão inseridos.
“Esta tem, por fundamento, a certeza de que somos todos melhores do que pensamos ser, capazes de fazer mais do que realizamos, porque todo o ser humano é expansivo.” ~Boal~
A Estética do Oprimido é um programa de formação estética que integra experiências com o som, a palavra, a imagem e a ética.

O Teatro do Oprimido é um método teatral dividido em várias técnicas que visam sempre a inclusão social das massas menos favorecidas da sociedade no contexto sócio-cultural-educativo, mostrando que todos têm capacidade de aprendizagem e desenvolvimento do ser, mostrando que o Teatro, uma antiga forma de arte e comunicação, também é uma ferramenta de integração social, aproximando e igualando os seus indivíduos. Levado às populações mais carentes, aos doentes nos hospitais, às escolas, aos internos nos presídios, o Teatro do Oprimido tem como proposta a mudança de vida e realidade das pessoas, ultrapassando barreiras e levando alegria e esperança aonde isso não mais existia. Todos são atores e espectadores no teatro da vida.
 
 
Augusto Pinto Boal nasceu em 16 de março de 1931, no bairro da Penha, Rio de Janeiro, e faleceu em 2 de maio de 2009, aos 78 anos, vítima de leucemia. Foi diretor de Teatro, ensaísta, dramaturgo e teórico. Formado em Engenharia Química, sendo Ph.D pela Columbia University, Nova Iorque, EUA. Na mesma época, estuda dramaturgia na School of Dramatics Arts, também em Colúmbia, com John Gasner. Em 1956, Boal volta ao Brasil a convite de Sábato Magaldi e Zé Renato para dirigir o Teatro de Arena de São Paulo. Escreveu cerca de dezoito livros, todos enfocando o Teatro, que foram publicados também em inglês, espanhol e francês. Seu método do TO é usado no mundo todo, nos cinco continentes, sendo Boal um dos nomes mais respeitáveis do meio. Tem uma verdadeira coleção de prêmios, a maioria internacionais, incluindo a Unesco e o Nobel.

“Ser Cidadão não é viver em sociedade, e sim transformá-la.”
Augusto Boal

Fontes de consultas:
     Jornal Capital Cultural #109, de maio de 2009 (Republicação e edição de entrevistas concedidas em 2006 e 2007)
     Teatro do Oprimido: pt.wikipedia.org/Teatro_do_Oprimido
     Site oficial CTO-Rio: www.ctorio.org.br
     Augusto Boal: http://pt.wikipedia.org.wiki/Augusto_Boal e www.ctorio.org.br/CURRICULO_BOAL

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